quinta-feira, 5 de abril de 2012

Poesias góticas s2

Quero ser a noite Já não me basta este corpo de carne E já me doem lembranças desta vida Eu quero ser a noite, em todo seu esplendor Quero ser o céu escuro que te cobre nas noites sem lua Já não me basta esta beleza limitada Essas paixões de memórias Este corpo de vida curta Não quero ser lembrada Não quero ser esquecida Não quero estar aqui Eu quero ser Apenas ser E sempre ser Eu quero que me sintas, me toques, me vejas E eu não estarei lá Não quero estar ao teu lado para que apenas assim penses em mim Eu quero ser a noite, em todo seu esplendor A noite de beleza eterna Quero ser a brisa que te toca todas as manhãs Que te traz noticias de além mar Eu quero ser o manto negro que te cobre ao final de todas as tardes Eu quero ser a noite Quero ser para sempre
Pedaços de mim no chão No espaço onde eu habitava não me encontro mais. no mesmo lugar está um velho par de sapatos; roupas num canto, outras na parede penduradas. na solidão conversam entre si em diálogos silenciosos; perguntam por mim. Mas não estou. há tempos não me vêm, há tempos não saem; há tempos não me vestem; há tempos não me calçam os pés. E não sabem onde estou. É que sou feito do mesmo tecido que são feito os sonhos, e como não mais tenho sonhos, tampouco tenho vida; tampouco existo. mas o que ainda há, são vestígios de mim. Entre a poeira e o mofo, o silêncio e a solidão, pedaços de mim no chão.
Advogado do diabo Ali, logo – disseram-me ao ouvido. Apontou-me não sei o quê de luminoso opaco: lá está! Ah! O inferno veio pousar à minha frente. Inteiro, completo. E os meus olhos descansaram na imagem de seu dono, seu senhor. Terrível pesadelo! Senhor de tais recônditos – disse eu – já não mais andas sozinho. Antes trazes agora contigo o teu reino? E sentado no canto escuro do meu quarto, onde somente sua silhueta era divisada na penumbra da luz lunar, ficou. - Não há sobre esta superfície corrompida, uma só coisa da qual poderás me surpreender. Antes, eu me repugno com o lado externo das coisas do que o avesso. Demoraste. É tarde para ti. Falou-me: - É tudo uma questão de escolha. Tudo! Pode-se ficar de qualquer lado e terás sempre uma razão. Ah, A ambigüidade! Coisa divina ou proeminentemente humana? Sim, advogados. Façam uma estátua e cultuem a ambigüidade. Que seria de vós sem ela? Essa coisinha pariu uma filhinha...humm...E ela é tão adorada! A humanidade a adotou, é sua afilhada querida. Que nome a deram? Hipocrisia chama-se ela. Filha amada! Mas ouça: antes dela nasceram duas irmãzinhas gêmeas, univitelinas. Mas, ah! Que fatalidade: São tão distintas. Como pôde? Ora, que importa? Todos gostam delas também. Mas uma, querem para si, a outra dão para os outros, mas sempre as querem por perto. Mas como se chamam? Verdade e Mentira, são como as chamam - Ora, ora, mas veja se não é o que dizem, senhor deles. Tu és o pai de uma delas, a quem chamam Mentira. Sua filha amada. - Há um dito entre os humanos e que é universal. Ora, dizem que pai é quem cria. Se tu a crias, é filha tua, embora tenha nascido de mim. - Calo-me quanto a isso. Se podes pensar assim. Maldita! Maldita ambigüidade. Mas, senhor deles, piso-te o cenho feio. Vai, e contigo tua casa. Sobre esse assoalho há terra fria, mas mais ao fundo encontrarás solo quente. Esta superfície que me arrasta, e comigo tudo abaixo do manto gasoso, é minha casa. Não! É por onde vaga meu corpo, que é casa do meu espírito. Sobre esse corpo necessito um telhado para proteger-me corpo e espírito. Mas sobre tu está tudo e todos. Para que necessitas dessa proteção? - Até as palavras necessitam de abrigo, pois se as tivéssem apenas no ar não lembrarias nem mesmo o teu nome.

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